Considerando o fato que a chegada do Ifá no Brasil foi muito recente, do ponto de vista histórico, existem vários esclarecimentos que devem ser divulgados para que o público em geral não se torne vítima de supostos sacerdotes.
Se uma pessoa decide se submeter a uma iniciação em Ifá ela deve ter em mente que o culto ao bom caráter (Iwa pele) é o único caminho para a realização plena dentro da Religião Tradicional Yoruba.
Não são todas as pessoas que são providas de má fé, temos conhecimento que existe um percentual de pessoas que confundem o Candomblé e a Religião Tradicional Yoruba.
Uma pessoa coerente entende que o Candomblé quando chegou no Brasil era praticado da forma como a Religião Tradicional Yoruba é praticada nos dias de hoje.
O tempo passou e muitas coisas foram modificadas, embora a resistência e a determinação dos babalÒrìṣà tenham conservado grande parte dos rituais que aqui chegaram há mais de um século.
A diferença entre esses dois seguimentos não pode ser ignorada.
Não queremos e não vamos discutir essas diferenças porque o objetivo desse texto é explicar como acontece o estelionato na religião de Òrìṣà em nosso país.
Se um Bàbálórìsà do candomblé quiser se tornar um Bàbálórìsà da Religião Tradicional Yoruba é evidente que ele deve passar por rituais de iniciação em alguns Òrìṣàs, fazendo idosu novamente nesse novo seguimento com o objetivo de adquirir preparação adequada para iniciar novos membros na Religião Tradicional Yoruba.
O mesmo acontece com Bàbálórìsàs que fazem parte da tradição que pretendem fazer iniciações em adeptos do Candomblé, quem não tem idosu no candomblé não inicia pessoas em Òrìsàs neste segmento.
O mesmo processo se aplica com a Umbanda e outros segmentos da Religião Afro Brasileira, a pessoa só pode dar o que tem, se não for assim não está correto.
Uma pessoa com dificuldades financeiras pode receber um igba de Òrìṣà que, a título de misericórdia foi confeccionado com um mínimo de componente (abòrisà) , mas isso não torna a pessoa um sacerdote daquele Òrìṣà com permissão para atender e iniciar.
Até uma pessoa que não é iniciado pode receber um assentamento para proteger a sua residência ou o seu negócio, mas isso não a qualifica com um sacerdote, nem concede a ela a permissão para fazer iniciações.
Para ser sacerdote da Religião Tradicional Yoruba é necessário fazer todos os rituais, inclusive os rituais referentes ao terceiro, o sétimo e o decimo sétimo dia de iniciação.
Na religião dos Òrìṣà existe uma frase que é muito esclarecedora, “Ninguém pode dar o que não tem”.
Um indivíduo que não tem o assentamento dos seus Òrìṣà com todos os rituais pertinentes jamais poderá se dizer um iniciador, ele permanece sendo um iniciado.
O obé, (faca), e o Èrìndílógún (búzios) poderão ser preparados com a finalidade de uso futuro, assim como um opon e um òpèlè, mas isso não caracteriza que a pessoa tem permissão para usá-los.
Na Religião Tradicional Yoruba assim como no candomblé o oye (título) deve ser anunciado com antecedência e entregue em cerimonias públicas.
Um Omo Ifá ou um Awo Ifá pode ser Bàbálórìsà, mas um Awo kekere, um Bàbáláwo ou um Olúwo jamais poderão ser Bàbálórìsà. Isso acontece em razão dos juramentos feitos no momento da sacralização dos òpèlè.
O òpèlè é um Òrìṣà que, após a iniciação proíbe o uso dos outros oráculos, um Awo Kekere, um Bàbáláwo ou um Olúwo, jamais poderão consultar publicamente com Mérìndilogún, como descreve o verso abaixo postado pelo Àràbà Awodiran Agboola.