O RESPEITO A FORMAÇÃO DE UM BOM BABALAWO

Como vivemos em uma democracia é natural que temos, ou mais cedo ou mais tarde, em qualquer profissão, que aceitar, ou pelo menos tentar entender, as críticas. O mais difícil das críticas é a exteriorização muitas vezes de um conhecimento hipotético. Traduzindo isso, é ouvir alguém falar sobre o que você domina com total desconhecimento.

O termo crítica provém do grego kritikē (κριτική) que significa (a arte de) “discernir”, “separar”, “julgar”. É um ato do espírito que preserva o que merece ser afirmado e põe em dúvida a pretensão daquilo que pode ir além do seu domínio de aplicação e, portanto, não merece ser afirmado (Dicionário Etimológico Online).

Imaginem Euclides de Jesus Zerbini, o grande cirurgião do coração, recebendo críticas de um perito em prospecção de petróleo ou Edson Arantes do Nascimento (Pelé), recebendo críticas da sua habilidade enquanto jogador de futebol de um cantor de rock. Guardando as devidas proporções é mais ou menos isso que vejo acontecer com o nosso trabalho.

Em alguns momentos de nossa trajetória enquanto sacerdotes, somos surpreendidos por algumas afirmações que provocam risos. Professores, jornalistas e escritores não iniciados já tentaram fazer uma análise do nosso trabalho e do nosso projeto (Ifá é para todos). Nos últimos três anos, iniciamos quase mil e quinhentas pessoas, escrevemos mais de seiscentos textos e obtivemos aproximadamente oito mil fotos que documentam a nossa iniciativa. É muito desconcertante ouvir críticas de alguém que não é iniciado.

Seria muito engraçado se não fosse ridículo assistir pessoas que nunca iniciaram ninguém comentar sobre o nosso desempenho enquanto sacerdote. Nos cinquenta quatro anos que estamos na religião, conseguimos alguns milhares de fotos do nosso trabalho. Só no facebook disponibilizamos mais de seis mil fotos e um sujeito, que não tem foto nem da iniciação que ele diz ter feito, tenta crescer na nossa sombra.

Um itelodù (a feitura de um Bàbàláwo) tem mais de cinquenta rituais, cada um deles descrito em um Odù. Imaginem uma pessoa que não é iniciada em Ifá escrever um texto comentando sobre a área do iodou e sua localização, assim como os rituais que se desenvolvem em seu interior. Do fundo do coração, é de sentir pena dessas pessoas, pobres desavisadas.

Se no Odù otura ìwòrì está bem claro que um Bàbàláwo não deve fazer uma iniciação em Ifá sozinho, como é que alguns Bàbàláwo no Brasil viajam sozinhos fazendo itefas e itelodù?

Se no Odù otura ìwòrì diz que um Bàbàláwo não pode comercializar as coisas de Ifá como é que alguns Bàbàláwo vendem roupa, obi e Orobó?

Se Ifá indica no Odù ose Irete que o Bàbàláwo deve fazer a iniciação diante de Opa Osun, como é que pessoas que não foram iniciados nesse Òrìṣà podem iniciar em Ifá?

Se no Odù Ìká Òfún diz que só podemos dar o que temos, como pode um Bàbàláwo que não tem Iya Odù e não é iniciado em Ògún usar o obé?

Esses são alguns questionamentos que nos fazem pensar sobre o Ifá que é praticado em nosso país.

O fato é que o território Yorubá está longe do nosso país dificultando a comunicação, sendo assim, por falta de informação, as pessoas que faziam parte do culto ao Òrìṣà afro-brasileiro terminam improvisando e dão origem a uma grande mistura.

Considerando que todos os ensinamentos estão contidos nos versos de Ifá, o iniciado deve estudar a palavra de Òrúnmìlà.

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