O MUDO EMPRESARIAL E OS ÒRÌṢÀ

Em uma linguagem popular se fomos comparar o Ọrùn a uma empresa usando assim uma didática de fácil assimilação o processo seria composto da seguinte forma:

  • Olódùmarè seria o equivalente ao presidente da empresa, que teria imediatamente dois diretores de total confiança.
  • Òrúnmìlà seria o equivalente a um diretor administrativo que identifica e orienta a questão.
  • Iya mi seria o equivalente a um diretor executivo com a função de dar andamento as orientações fornecidas por Òrúnmìlà, sendo assim o destino por nós escolhido diante de Ajala antes de vir para terra é testemunhado por Òrúnmìlà e informado a Iya mi.
  • Iya mi não interfere na escolha de nosso destino, ela segue as orientações de Òrúnmìlà liberando os seus assistentes (ajoguns), para executarem o trabalho.
  • Os ajoguns, iku(morte), arun (doença), ejo (problemas), etc, são liberados por Iya mi em quase a totalidade das situações correspondendo a uma escolha feita por nós mesmos, não é Iya mi que é ruim ou perversa ela exerce uma função assim como os demais Òrìṣàs.

As pessoas iniciadas em Òrìṣà não podem ser sepultadas em gavetas o ideal é que seus corpos sejam restituídos a terra, sendo assim o ajogun iku(morte), não é ruim, ele exerce uma função determinada por Iya mi, porém em data quase sempre escolhida por nós.

No Odù Ogbe Yonu, Òrúnmìlà orienta os Òrìṣàs para oferecerem efun e osun, além de várias folhas para Iya mi Osoronga, Iya mi se compromete a não atacar os filhos dos Òrìṣàs.

No Odù Ogbe Sa, Iya mi se compromete com Òrúnmìlà em fazer o bem quando chega a terra, ela diz a Òrúnmìlà, que seus filhos vão ter prosperidade e felicidade.

No Odù Irete meji Òrúnmìlà viaja para a cidade de Ota e descobri o segredo das Iya mi, ele oferece o prato predileto delas e eles se tornam amigos.

No Odù Irete Ogbe, Iya Odù se torna a esposa de Òrúnmìlà que reconhece o poder de Iya quando ela invoca o pássaro Aragamágo como sendo muito superior ao seu.

No Odù Ose Oyeku Òrúnmìlà orienta Ogun, Obaluaye, Odùduwa e Obàtálá para que façam oferenda para Iya mi que reconhece os mesmos como filhos.

A figura materna de Iya mi é confirmada em vários versos de Ifá, uma mãe tem o dever de zelar pelos seus filhos, não tem o dever de agradá-los, nem tudo que uma mãe faz é compreendido por seus descendentes.

Iya mi é uma mãe zelosa e poderosa que habita dentro de cada um de nós, em nossas vísceras ela pode se manifestar de maneira positiva ou negativa. Iya mi pode criar um mal-estar para impedir que a pessoa saia de casa e seja vítima de algo que não faça parte de seu destino, o problema intestinal certamente vai ser visto de forma negativa, mas será necessário para manter a pessoa longe do perigo.

A igreja católica ao longo da história combateu a figura feminina por temer a capacidade que só as mulheres têm, que é abrigar uma nova vida dentro delas, as mulheres são muito superiores aos homens em vários sentidos, essa é a verdadeira razão do combate histórico a figura feminina. Iya mi foi uma das vítimas desse processo histórico.

Para cultuar Iya mi é necessário amar e respeitar a figura feminina, respeitar as mães, as irmãs, as filhas, respeitar a natureza e o poder de criação, Iya mi é a própria vida, é quem nos gerou, é quem nos abrigou no passado, é que nos abriga no presente, é com certeza quem vai nos abrigar em um futuro quando passarmos dessa para uma outra.

Algumas pessoas em seu Odù de nascimento necessitam se aprofundar no culto a Iya mi, mais do que outras, isso se deve a própria história de cada Odù e ao destino escolhido pela pessoa, de qualquer forma o culto a Iya mi pode ser praticado por qualquer um, agradar aos nossos antepassados femininos é muito mais fácil do que parece. Para agradar Iya mi temos que estar em harmonia com a natureza e com os nossos semelhantes, a essência do culto a Iya mi é a força feminina maternal que gera e mantém a vida, manter a vida é como amamentar o recém-nascido, é conservar a essência e estimular o desenvolvimento do que temos de melhor.

Iya mi é a força da vida é a capacidade de criar, é a capacidade de amar, é a manutenção da vida, é o leite que alimenta o recém-nascido é o desenvolvimento sadio é a evolução, é a capacidade de renovar como forma de perpetuar a vida.

Em uma árvore grande e sadia podemos observar centenas de galhos como extensão do tronco, podemos ver milhares de folhas e frutos como extensão dos galhos, os frutos dentro deles têm centenas de sementes que geraram outras arvores.

É esse ciclo da vida que representa Iya mi a arvore é só um exemplo, quando estamos diante de uma mulher gravida esse mesmo ciclo pode ser observado, assim é a história, nada acontece sem essas senhoras.

Me causa espanto a falta de conhecimento sobre Iya mi, eu acredito que com o passar do tempo muito desses mitos devem desaparecer.

Quando se fala de iniciação em Ifá estamos falando de um dos momentos mais importantes da vida espiritual de qualquer pessoa, a cerimônia do itefa é constituído de cinquenta e quatro atos que tem como finalidade principal esclarecer as dúvidas sobre o destino do iniciado.

O Itefa esclarece facilitando o dia a dia proporcionando informações para que o iniciado esteja alinhado com o destino por ele escolhido antes do seu nascimento.

A iniciação em Ifá é muito discutida por pessoas que não foram iniciadas, então o que dizer desses comentários, o ideal seria que as pessoas escrevessem sobre aquilo que de fato elas conhecem.

A preparação de um itefa normalmente leva vários dias, a compra dos animais e do material que será utilizado na iniciação é orientada pelo Oluwo, o critério no momento da compra dos materiais[1] sempre deve ser que sobre material, ao invés de faltar, a sobra facilita assim as indicações ainda desconhecidas no decorrer dos rituais.

Lista de materiais de um Itefa[2]:

  • 2 Bodes
  • 1 Cabra
  • 6 Galinhas
  • 6 Galos
  • 20 Igbins
  • 4 Pombos
  • 1 Galinha de angola
  • 50 Obi
  • 100 Orobo
  • 10 Efun
  • 30 Osun
  • 2 Eku eda
  • 4 Eja aro
  • 10 metros de eecido branco para roupa
  • Ikin em quantidade a ser definida pelo Oluwo
  • 10 iyerosun
  • 10 Odidi atare
  • 01 Vasilha para Ifá
  • 1 Vasilha para Exu
  • 500 gramas de búzios
  • 1 kg de Sabão da costa
  • 1 Idé Ifá
  • 1 Yangui
  • 1 Ileke Ifá
  • 8 Litros de gim ou vodka
  • 6 Litros de dendê
  • 1 litro de mel
  • 1 cabaça

Ainda considerando a compra dos materiais com fartura, é importante salientar que antes do início do itefa é feito uma consulta a Òrúnmìlà que vai orientar os ebos que antecedem o itefa, sempre é feito ebo riru, e outros ebos.

            O ritual do itefá é complexo e exisge diversas etapas, iremos listar as principais com algumas omissões que são segredos da religião:

  1. No início do itefa existem algumas cerimonias que não devem ser divulgadas, um exemplo é o primeiro ato que jamais poderá ser revelado, essa cerimônia acontece em uma mata.  Esse ato é dirigido pelo Oluwo, mas podem participar o ojugbona do iniciado.
  2. Preparação do caminho por onde vai passar o iniciado com ofertas a terra em número ímpar de um lado do caminho e em outro em número par.
  3. Preparação do sabão de Opa Osun.
  4. Alimentar opa Osun.
  5. Consulta a Ifá para a entrada do iniciado
  6. Ebó de entrada.
  7. Preparação das folhas para a entrada do iodou.
  8. preparação do Yangui do Exu do iniciado.
  9. Preparação do material que será utilizado no itefa e sua conferência.
  10. Preparação das aves que devem ser carregadas pelo iniciado.
  11. Inicio da caminhada em direção ao igbodù. O Oluwo segurando em sua mão Opa Osun começa as orações louvando os Òrìṣàs, é feita a apresentação do novo membro da família para os antepassados.
  12. Após a oração inicial através de Opa Osun é feita a invocação dos antepassados pedindo permissão para conduzir o awo[3], até o iodou.
  13. O awo será conduzido em uma caminhada precedida por seu Oluwo, a sua Iya apetebi[4] e seu ojugbona, a Iya apetebi carrega o yangui de Exu em sua cabeça, enquanto o awo que está vendado carrega os animais e todos os materiais para a iniciação.
  14. A Iya apetebi não necessita ser iniciada para participar dos atos iniciais do itefa, como os descritos até o decimo quinto ato que normalmente são públicos.
  15. Na entrada do iodou do lado esquerdo é feita a consulta a Iya Odù antes da entrada do awo para o iodou com obi e orobo. Do lado direito é colocada a vasilha contendo o Yangui do Exu que será assentado para o iniciado que permanece vendado.
  16. Retirada da venda.
  17. Alguidar com água um omi ero para lavar olhos de todos que vão entrar no igbodu, nesse alguidar será preparado as folhas de tètè, òdundún, rínrín e um igbin etc.
  18. O material do itefa é levado para dentro do igbodu.
  19. O Opa Osun é fixado na terra dentro do iodou para testemunhar todo processo.
  20. Alimentar Iya Odù para pedir permissão para começar os rituais dentro do Igbodù.
  21.  Raspagem da cabeça do awo
  22. Os atos do decimo ao vigésimo não podem ser divulgados.
  23. Preparação do solo para extrair o Odù de nascimento, o awo se senta atrás do Oluwo segurando na cintura ou nos ombros ou nas costas de seu Oluwo.
  24. Os atos do vigésimo segundo ao vigésimo terceiro não pode ser divulgados.
  25. Ritual aos pés de Opa Osun o Odù de nascimento do iniciado será revelado.
  26. Somente após saber o Odù é que os ikins serão alimentados, evidentemente porque o assentamento de Òrúnmìlà é feito com o Odù do iniciado, cabe dizer que anteriormente a isso existe a preparação dos ikins, porém é importante ressaltar que o Exu do iniciado assim como como o seu iba ori só serão alimentados a partir da apuração do Odù.
  27. No momento que é apurado o Odù do awo se ele vier em ibi ele deverá ser transformado em ire com o ebo riru antes do awo levantar da esteira.
  28. Ori, Exu pessoal e Òrúnmìlà são assentados com o Odù de nascimento extraído no itefa, se não for assim o compromisso de cumprir o destino escolhido pelo iniciado antes de nascer jamais será realizado.
  29. Se o awo já tiver Exu assentado antes do Itefa esse não pode ser aproveitado para o itefa, nem a vasilha de Òrúnmìlà usada no isefa pode ser aproveitada para o itefa. A vasilha anterior assim como o Exu foi preparada com outro Odù que não o Odù de nascimento do awo assim como ileke Ifá que deve ser novo.
  30. Os atos do vigésimo ao vigésimo sexto, não podem ser divulgados.
  31. Banho do awo.
  32. Pintura do Awo
  33. Os atos vigésimo nono ao trigésimo quarto não podem ser divulgados.
  34. No segundo dia, o iniciado recebe mais informações sobre o seu Odù, tomando conhecimento de seus ewos e recebendo o seu nome.
  35. Os atos do trigésimo sexto ao quadragésimo não podem ser divulgados.
  36. No terceiro dia o Oluwo com Opa Osun, lidera uma nova caminhada para levar o carrego do iniciado para o Rio, na volta do carrego Opa Osun, será fixado na terra, agora em frente à casa.
  37. Os atos do quadragésimo segundo ao quadragésimo terceiro não pode ser divulgados.
  38. Odù pada odo, na volta do rio é feito uma nova consulta a Òrúnmìlà que deve ser seguida dos ebos correspondentes ao novo caminho do awo, (quase sempre é feito ebo riru).
  39. Ainda no terceiro dia o Ifá será alimentado novamente.
  40. Os atos do quadragésimo nono não podem ser divulgados.
  41. A iniciada dança, canta e festeja o seu Odù durante a sua apresentação para o egbe.
  42.  Os atos do quinquagésimo primeiro não podem ser divulgados.
  43. Feita as cerimonias do terceiro dia, do sétimo dia e do decimo sétimo dia, diante de Opa Osun é retirado o ekodide.
  44. No ato citado acima quando o itefa é feito para Babalòrìṣà é diferente do que é feito para um Babalawo.
  45. A retirada do ekodide encerra o itefa que em razão do Odù poderá ou não dar início ao itelOdù, com o início do itelOdù as cerimonias tem um novo caráter com Iya Odù reconhecendo seu filho, esse ato é o quinquagésimo, enquanto a preparação do solo do início a um processo e o reconhecimento de Iya Odù encerra a feitura. No ato citado quando o itefa é feito para IyanIfá é diferente do que é feito para um Bàbàláwo.
  46. Em caso de ItelOdù, o awo será reconhecido por Iya Odù.

Todos esses ensinamentos que estou divulgando aqui foram recebidos de meu Oluwo Oyeniyi Awolola Agboola e do Araba Awodiran Agboola, os rituais de iniciação em nossa casa reproduzem na integra os rituais de iniciação de nossa família na cidade de Lagos na Nigéria.

Qualquer pessoa com um pouco de bom senso vai entender que por razões obvias divulguei aqui somente vinte e sete atos dos cinquenta e quatro atos que constituem a cerimônia de um itefa e um Itelodù.

Tanto nos casos de Babalawos como IyanIfás e omo Òrìṣàs as cerimonias podem levar de três a dezesseis dias.

Babalawos e IyanIfás e sacerdotes do culto de Òrìṣà tem a sua cabeça raspada nessas cerimonias.

Das mais de cinquenta cerimonias que constitui todo processo até o itelodù duas são diferentes para omo Òrìṣà e uma é diferente para IyanIfá.

O importante para mim é divulgar em princípio informações que possibilitem as pessoas em geral ter uma noção do que consiste em um itefa.

Considerando que ultimamente tem aumentado muito o número de pessoas enganadas por falsos sacerdotes.

Um Bàbàláwo ou uma IyanIfá não incorporam espíritos.

Um Bàbàláwo ou uma IyanIfá não comercializam materiais de asé.

Um Bàbàláwo ou uma IyanIfá só iniciam as pessoas depois de vários anos de estudo.

Um Bàbàláwo ou uma IyanIfá só iniciam em Ifá com a autorização de seu Oluwo.

Um Bàbàláwo ou uma IyanIfá não mentem e não enganam as pessoas, esses sacerdotes devem ser modelos de retidão e bom caráter para as suas comunidades.

Um Bàbàláwo ou uma IyanIfá não usam drogas e não podem ter envolvimento com coisas que constituam uma infração as leis de seu país.

Òrúnmìlà não pactua com traidores.

O awo que trilha o caminho da verdade jamais está sozinho, a minha verdade pode lhe incomodar muito, mas tenha a certeza de que a sua mentira me incomoda muito mais. Eu não sou o dono da verdade, mas também não sou um mentiroso, sendo assim Ajagunmale é aquele que vai nos julgar.

Esse texto foi motivado pela indignação de saber que pessoas dizem ser aquilo que na verdade elas não são, existem muitas pessoas se beneficiando do desconhecimento do público em geral, usando o nome de Òrúnmìlà em seu próprio benefício.

O certo é que o tempo para a falta de informação está terminando.

Esses textos não são frutos de pesquisas na internet são conhecimentos obtidos junto ao Araba de nossa família e do meu Oluwo.


[1] Quando o material é comprado em parte antecipadamente, o assentamento do Òrìṣà ire é facilitado após a indicação do Odù de nascimento, assim como a preparação do igba ori se necessário.

[2] Não vamos fornecer a lista completa nesse texto por acreditar que seja desnecessário a divulgação. A parte da lista divulgada já vai dar uma ideia para o leitor, ou seja, isso vai auxiliar para que ele não seja enganado por pessoas que se dizem sacerdotes.

[3] Nesse texto vamos para facilitar a compreensão nomearemos o iniciado como awo.

[4] A Iya apetebi normalmente é a esposa do Bàbàláwo, embora nesses rituais a figura da Iya apetebi possa ser representada por uma outra mulher, que não seja a esposa do Bàbàláwo.

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