“Em nossa casa frequentemente aparece um grupo de saguis, então vou colocar bananas para eles, quando me ocorreu de escrever esse texto sobre a Fé, os Òrìṣà, os Direitos e os Deveres dos iniciados e sacerdotes…”
Agboola, Ifagbaiyin.
Quando falamos de fé, nós não podemos ver o Òrìṣà e nem sabermos ao certo que dia que ele irá atuar em nossa vida, porém, você reza todos os dias, cuida de seu Òrìṣà, com amor e carinho, partindo do princípio que ele também está cuidando de você. Muitas vezes aos nossos olhos ele demora para interferir e nos auxiliares em nossas dificuldades do dia a dia, mas, na verdade o Òrìṣà, é que sabe a hora certa de interceder por nós. O Òrìṣà, interfere em nossas vidas constantemente, nós, que não temos a sensibilidade de perceber o que está acontecendo em nossa volta, por sermos seres imperfeitos, onde, estamos mais preocupados com as nossas dívidas, com as nossas aparências, a beleza da casa, da roupa, do carro, do que vamos adquirir e que na maioria das vezes não percebemos as mudanças do mundo espiritual. Baseando-se nesse contexto elucidaremos alguns aspectos importantes que norteiam a vida do iniciado e do sacerdote dentro da casa de Òrìṣà.
Ao entrar na casa de Òrìṣà, é dever do inicado cumprimentar primeiramente os Òrìṣà, para depois saudar o sacerdote e os membros da família.
É direito dos iniciados, entrar nos quartos dos Òrìṣà, para saudá-los e fazer suas orações. É dever do sacerdote permitir a entrada, saudar e respeitar o Òrìṣà do iniciado, caso ele incorpore.
O procedimento correto é recolher o Òrìṣà, para dentro de um dos quartos colocar uma roupa adequada, retirar os calçados e levar o Òrìṣà, para saudar o ojúbọ do Òrìṣà, dono da casa, para depois saudar o sacerdote.
Na casa de Òrìṣà, é dever do iniciado auxiliar nas atividades, assim como na limpeza, manutenção e conservação de todas as instalações.
É um direito do iniciado, em caso extremo, ser atendido em consulta mesmo que não disponha naquele momento de dinheiro.
É dever do iniciado, auxiliar na compra de materiais para a manutenção da casa.
É dever do sacerdote, auxiliar os iniciados que não disponham de materiais para a manutenção dos Igbá de seus Òrìṣà
É direito dos iniciados, fazerem as refeições na casa de Òrìṣà, durante o período que eles estejam em rituais e cerimônias.
Demonstra boa educação, o iniciado que sirva seu alimento durante as refeições, após o sacerdote ter se servido
É dever dos iniciados, informar, caso decidam participar de alguma cerimônia religiosa em outra casa, sendo assim, é um dever do sacerdote orientar seus iniciados de como devem se comportar em visitas a outras Casas de Òrìṣà.
É um dever do sacerdote, transmitir ensinamentos e interferir quando necessário em benefício do seu iniciado.
É um dever do iniciado, respeitar e honrar a sua família e a casa na qual ele foi iniciado.
Assim sendo, podemos observar, que o sacerdote não é o dono da casa de Òrìṣà, e sim o próprio Òrìṣà, por isso sempre será cumprimentado primeiro. Quando o iniciado entra no terreno do Ilé Òrìṣà, deverá primeiramente se dirigir ao Èṣù, da casa e pedir permissão para adentrar, posteriormente, se necessário for deverá se trocar com uma roupa adequada e cumprimentar o Òrìṣà, dono da casa, logo em seguida o sacerdote principal, para que finalmente cumprimente os demais membros da Ẹgbẹ́, seguindo a hierarquia. O cumprimento ao sacerdote que iniciou o iniciado deverá ser feito com o ato de colocar a cabeça no chão (foríbalẹ̀), já para os demais essa reverência poderá ser ou não substituída por uma saudação.
As mulheres iniciadas deverão se vestirem de acordo com as cerimônias usando saia, pano da costa e pano de cabeça. É dever dos iniciados se vestirem de forma adequada ao ambiente da casa de Òrìṣà, sendo proibido o uso de bermudas, shorts e roupas cavadas. É dever dos homens iniciados auxiliar as mulheres iniciadas nos trabalhos que exijam uma maior força física e também não é nenhum demérito auxiliar em atividades teoricamente femininas. No período de iniciações pressupondo que o novo iniciado não disponha de condições financeiras para as compras referentes a sua iniciação é dever dos iniciados mais antigos e do sacerdote contribuírem com trabalho e dinheiro facilitando assim a situação do necessitado.
Em caso de visita de membros de outras famílias é dever do sacerdote abrir os quartos dos Òrìṣà, para que sejam saudados e junto dos iniciados receber os visitantes com o máximo de respeito. Para melhor compreensão a partir de agora definiremos aqui assentamento coletivo como Ojúbọ e assentamento particular como Igbá. É dever de todos os iniciados participar do Ọ̀sẹ̀ dos ojúbọs da casa de Òrìṣà, assim como, é um direito do iniciado desfrutar de silêncio durante o Ọ̀sẹ̀ em seus Igbás para que possa fazer suas orações. Ọ̀sẹ̀ (semana), é o dia em que completa uma semana Yorùbá, período referente de quatro em quatro dias, Ọ̀sẹ̀, o primeiro dia da nova semana que se inicia, para maior compreensão é o quinto dia após o primeiro Ọ̀sẹ̀. O Ọ̀sẹ̀ dos ojúbọs deverá ser feito pelos iniciados que já tenham permissão do sacerdote para esse ritual, é impossível que o sacerdote mantenha todos os Òrìṣà, da casa limpos e tratados sozinho, a participação de todos os membros é fundamental para que se estabeleça o conceito de família.
Com exceção do seu Òrìṣà, principal, quase todos os assentamentos devem ser tratados como ojúbọ, salvo Ọ̀rúnmìlà, o Èṣù pessoal, Ìyá mi e Egúngún, Òrìṣà esses individuais, no caso igbá Òrìṣà. É importante ressaltarmos que não podemos confundir com assentamento coletivo de Egúngún, Ìgbàlẹ̀ ou Ojúbọ.
O igbá do Òrìṣà, do iniciado é de propriedade dele, é dever do sacerdote entregar o igbá para o iniciado que deve providenciar um local adequado para manter o assentamento. Jamais, o assentamento do Òrìṣà, deverá ser retido na casa de Òrìṣà, por falta de qualquer tipo de pagamento, os pagamentos são feitos por rituais e não por igbá, o assentamento do Òrìṣà, jamais poderá ser usado como garantia de um pagamento futuro.
É dever do iniciado antecipadamente solicitar ao sacerdote autorização para levar amigos na casa de Òrìṣà, que poderá estar em cerimônias não permitidas para visitantes. É um direito do iniciado solicitar ao sacerdote que ele ministre suas próprias cerimônias e rituais, assim como, é um dever do sacerdote corresponder à confiança depositada em suas mãos. Um exemplo que podemos utilizar para elucidar essa ideia é o ritual de Bọrí, que devem ser ministrados pelo principal sacerdote da casa de Òrìṣà, e jamais por outros membros mesmo aqueles com conhecimento comprovado.
Recomenda-se as pessoas em visita a casa de Òrìṣà, que mantenham o hábito de levar para os Òrìṣà, agrados como, obì, orógbó, esteiras, dendê, mel, gim, frutas e flores. A manutenção da casa de Òrìṣà, é dispendiosa e deve ser considerada como responsabilidade de todos os membros. Quanto a manutenção da fé, ela não tem rituais específicos ou uma fórmula secreta, os rituais podem ser ensinados, mas, a crença ela é desenvolvida sem o controle pré-estabelecido. Acreditamos ou desenvolvemos a fé com o passar do tempo, porém, a fé jamais será instruída, os sentimentos afloram dispensando justificativas, o Òrìṣà, opera em nós o milagre de acreditar naquilo que não estamos vendo, mas, que podemos sentir. A força do Òrìṣà, transforma, tranquiliza, e fortalece o interior do iniciado sem que ele perceba, somente o tempo atesta a evolução e o desenvolvimento espiritual. Não existe a possibilidade de pular etapas, a vida se desenvolve dia após dia.