Aula 11 – Ìyá mi Òṣòròngà

“Escrever sobre Ìyá mi deveria ser um compromisso de todos os sacerdotes do culto ao Òrìṣà, é nossa obrigação tentar desmistificar e enaltecer as divindades do panteão Yorùbá…”

Ifagbaiyin Agboola.

Embora Ìyá mi se faça presente em todos os odus, falar sobre Ìyá mi é transitar pelos versos dos odus: Ọ̀sá Méjì, Ọ̀ṣẹ́ Óyéku, Ìrẹtẹ̀ Méjì, Ogbè Sá, Ìrẹtẹ̀ Ọ̀wọ́nrín e Ìrẹtẹ̀ Ogbè.

Èṣù, Ọ̀rúnmìlà e Ìyá mi respondem nos duzentos e cinquenta e seis odus, porém, em alguns é exaltada a necessidade de pactuar com Ìyá mi de forma a criar uma aproximação do indivíduo com a informação e a ritualística, considerando que a energia já o acompanha desde o seu nascimento.

Podemos observar constantemente supostos conhecedores falando mal de Òrìṣà e de determinados odùs e um desses é Ọ̀sá Méjì, famoso entre os incultos como sendo um odu negativo, é por essa razão que vamos começar falando do aspecto positivo contido nesse odù e no culto a Ìyá mi Òṣòròngà.

No odù Ọ̀sá Méjì, Ìyá mi Òdù quando chega a terra começa a agir sem limites, desrespeitando os Òrìṣàs, chegando ao ponto de vestir a roupa de Egúngún, encontrando dificuldades para dançar com a roupa, Ọbàtálá, introduz uma espécie de tela, através de um corte na roupa para que permita Iyá mi enxergar.

É evidente que posterior a essas confusões algo teria que ser feito e Ìyá mi deveria ser acalmada, então, após uma consulta a Ọ̀rúnmìlà, Ọbàtálá é aconselhado a dividir o seu alimento com Ìyá mi, através desse ato Ọbàtálá, conseguiu acalmá-la ofertando a água do Ìgbín (omi ẹ̀rọ̀), daí por diante, o ìgbín passou a ser o principal alimento de Iyá mi Òdù.

O trabalho de um Bàbáláwo é interpretar os versos de Ifá, considerando o citado acima, estamos falando de um convívio harmonioso entre um personagem masculino e outro feminino, a água do ìgbín é conhecida como a água que acalma, sendo assim, esse odù fala de um período de paz e prosperidade.

Já no odù Ìrẹtẹ̀ Ọ̀wọ́nrín, Ọbàtálá tenta ludibriar Ìyá mi se negando a pagar um tributo para a grande mãe ancestral, Ìyá mi com habilidade percebe a armação e se antecipa ao embuste criado.

Interpretando essa passagem do odù Ìrẹtẹ̀ Ọ̀wọ́nrín, percebemos que Ìyá mi, só quer o que é dela por direito deixando bem claro que ela não se antepõe aos Òrìṣàs ou aos seres humanos. Em uma linguagem popular se formos comparar o Ọ̀run a uma empresa, utilizaremos uma didática de fácil assimilação, onde, o processo seria composto da seguinte maneira:

Olódùmarè seria o equivalente ao presidente da empresa, que teria imediatamente dois diretores de total confiança.

Ọ̀rúnmìlà, que seria um diretor administrativo que identifica e orienta a questão e Ìyá mi, seria uma diretora executiva com a função de dar andamento as orientações fornecidas por Ọ̀rúnmìlà, sendo assim, o destino por nós escolhido diante de Àjàlá antes de virmos para terra é testemunhado por Ọ̀rúnmìlà e informado a Ìyá mi.

Ìyá mi não interfere na escolha do nosso destino, ela segue as orientações de Ọ̀rúnmìlà liberando os seus assistentes (ajogun), para executarem o trabalho.

Os ajoguns, Ikú (morte), Àrùn (doença), Ẹjọ́  (problemas), dentre outros, são liberados por Ìyá mi em quase a totalidade das situações correspondendo a uma escolha feita por nós mesmos, não é Ìyá mi que é ruim ou perversa ela exerce uma função assim como os demais Òrìṣàs.

As pessoas iniciadas em Òrìṣà não podem ser sepultadas em gavetas o ideal é que seus corpos sejam restituídos à terra, sendo assim o ajogun ikú (morte), não é ruim, ele exerce uma função determinada por Ìyá mi, porém, em data quase sempre escolhida por nós mesmos.

No odu Ogbè Yonu, Ọ̀rúnmìlà orienta os Òrìṣàs para oferecerem ẹfun e osùn, além de várias folhas para Ìyá mi Òṣòròngà, com isso, Ìyá mi se compromete a não atacar os filhos dos Òrìṣàs.

No odù Ogbè Sá, Ìyá mi se compromete com Ọ̀rúnmìlà em fazer o bem quando chega a terra, ela diz a Ọ̀rúnmìlà, que seus filhos vão ter prosperidade e felicidade. 

No odù Ìrẹtẹ̀ Méjì, Ọ̀rúnmìlà viaja para a cidade de Ota descobrindo assim o segredo de Ìyá mi, ele oferece o prato predileto dela e eles se tornam grandes amigos.

No odu Ìrẹtẹ̀ Ogbè, Ìyá mi Òdù se torna a esposa de Ọ̀rúnmìlà, que reconhece o poder de sua esposa quando ela invoca o pássaro Aragamágo como sendo muito superior ao poder de Ọ̀rúnmìlà.

No odu Ọ̀ṣẹ́ Ọ̀yẹ̀kú, Ọ̀rúnmìlà orienta Ògún, Ọbalúwayé, Odùduwà e Ọbàtálá para que façam oferendas para Ìyá mi, que reconhece os mesmos como filhos.

A figura materna de Ìyá mi é confirmada em vários versos de Ifá, uma mãe tem o dever de zelar pelos seus filhos, e não de agradá-los, pois, nem tudo que uma mãe faz é compreendido por seus descendentes.

Ìyá mi é uma mãe zelosa e poderosa que habita dentro de cada um de nós, em nossas vísceras ela pode se manifestar de maneira positiva ou negativa. Ìyá mi pode criar um mal-estar para impedir que a pessoa saia de casa e seja vítima de algo que não faça parte do seu destino, provavelmente, o problema intestinal será visto de forma negativa, porém, será necessário para manter a pessoa longe do perigo.

A igreja católica ao longo da história combateu a figura feminina por temer a capacidade que somente as mulheres possuem, que é o fato delas poderem abrigar uma nova vida dentro delas, as mulheres são muito superiores aos homens em vários sentidos, essa é a verdadeira razão do combate histórico a figura feminina. Ìyá mi foi uma das vítimas desse processo histórico.

Para cultuar Ìyá mi é necessário amar e respeitar a figura feminina, respeitar as mães, as irmãs, as filhas, respeitar a natureza e o poder da criação, Ìyá mi é a própria vida, é quem nos gerou, é quem nos abrigou no passado, é quem nos abriga no presente, e com certeza quem irá nos abrigar em um futuro quando passarmos dessa para uma outra. Algumas pessoas em seu odù de nascimento necessitam se aprofundar no culto a Ìyá mi mais do que outras, isso se deve a própria história de cada odù e ao destino escolhido pela pessoa, de qualquer forma o culto a Ìyá mi poderá ser praticado por qualquer um, agradar aos nossos antepassados femininos é muito mais fácil do que parece. Para agradar Ìyá mi temos que estar em harmonia com a natureza e com os nossos semelhantes, a essência do culto a Ìyá mi é a força feminina maternal que gera e mantém a vida, manter a vida é como amamentar o recém-nascido, é conservar a essência e estimular o desenvolvimento do que temos de melhor.

Ìyá mi é a força da vida é a capacidade de criar, é a capacidade de amar, é a manutenção da vida, é o leite que alimenta o recém-nascido é o desenvolvimento sadio, a evolução, é a capacidade de renovar como forma de perpetuar a vida.

Em uma árvore grande e sadia podemos observar centenas de galhos como extensão do tronco, podemos ver milhares de folhas e frutos como extensão dos galhos, os frutos dentro deles têm centenas de sementes que gerarão outras árvores.

É esse ciclo da vida que representa Ìyá mi a árvore é só um exemplo, quando estamos diante de uma mulher grávida esse mesmo ciclo poderá ser observado, assim é Iyá mi, onde, nada acontece sem essas senhoras.

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