Aula 8 – Ẹbọ: Sacrifício e Transformação no Ifá.

“Eu fico contrariado quando vejo na internet pessoas postarem textos de odù sem que conste a qual odù pertence, nenhuma pessoa pode se intitular dono dos versos de Ifá…”

Ifagbaiyin Agboola.

Mas a final de contas o que vem a ser o ẹbọ rírù? Primeiramente é importante compreendermos o significado literal da expressão ẹbọ rírù, onde teremos, ẹbọ: é uma oferenda ou sacrifício cujo objetivo é prevenir e remover episódios desagradáveis recorrentes na vida do consulente, assim como, atrair o bem-estar para a vida do mesmo, caracterizando também atos litúrgicos.

Posteriormente teremos rírù: onde rí, significa ver e rù, significa carregar (transportar), sendo assim, poderemos interpretar essa expressão como uma oferenda ou sacrifício realizado no àiyé (mundo físico) visto e testemunhado por um grupo de pessoas antes de ser conduzido e entregue no ọ̀run (mundo espiritual).  O ẹbọ rírù, é um ritual recorrente no culto a Ifá e poderá ser oficializado somente por um bàbáláwo ou uma ìyánífá. 

Esse ritual consiste em oferecer sacrifícios a um determinado odù previamente extraído em consulta para o consulente, pois, entende-se que não existe odù bom ou odù ruim, o que de fato existe é a forma que a pessoa está sendo influenciada pelo odù naquele determinado período da sua vida. Se o consulente estiver sendo influenciado com aspectos positivos, configura-se que o odù está em ire, caso contrário, com aspectos negativos, configura-se que o odù está em ibi.

O ẹbọ rírù, é uma cerimônia bastante eficiente para lidar com essas influências, seja para transformar o ibi em ire ou até mesmo para assegurar o odù que já se encontra em ire para que a pessoa retorne ou permaneça no seu caminho predestinado.

Existem vários tipos de ẹbọ rírù, como por exemplo, ètùtù que é o ẹbọ destinado ao apaziguamento ou satisfação das divindades, àdàbò, que é o ẹbọ onde a pessoa oferece algo em agradecimento pela vitória alcançada, temos também ìkúnlẹbọ, que é o ebó destinado diretamente a um Òrìṣà previamente sentenciado por Ifá através da consulta, dentre vários outros.

Três estruturas básicas constituem o ẹbọ rírù, que são elas: erigi awo agbasa, que é o ritual propriamente dito, ou seja, é a estrutura técnica de como executar o ritual corretamente.

Depois teremos ìkìlọ̀ (recomendações), onde, é de vital importância, além de executar o ẹbọ, seguirmos as orientações e conselhos que Ifá nos revelou através da consulta.

E por último teremos os èèwọ̀s (interdições), que caso venhamos a violá-los poderemos colocar em risco todo o àṣẹ necessário para que o ẹbọ venha a se concretizar. Cada um desses aspectos é de fundametal importância para que o ẹbọ rírù se torne uma ferramenta infalível para remoção dos obstáculos e retomada ou até mesmo a permanência do nosso caminho em ire. Abordaremos a seguir a ordem que configura o ẹbọ rírù, praticado em nossa família, respeitando as diferenças das mais variadas formas de configuração do ẹbọ rírù praticado por outros grupos familiares. Ordem esta:

  • Primeiramente, Ìrẹtẹ̀ Òtùrá, nesse verso é feito uma homenagem a Olódùmarè e o bàbáláwo se identifica como extensão do trabalho divino.
  • Segundo Ọ̀wọ́nrín Méjì, nesse verso o bàbáláwo homenageia o pai, a mãe, o olúwo, o ojúgbọ̀nà e a todos os ancestrais, reafirmando o respeito à família.
  • Terceiro, Idingbè, nesse verso é solicitado que o ebó seja aceito e que as maldições lançadas sobre o consulente sejam eliminadas.
  • Quarto, Òtùrá Ká, nesse verso é descrito todo o material que vai ser ofertado deixando explícito que o dinheiro também é um elemento que faz parte do ẹbọ. Nesse momento o bàbáláwo faz referência ao odù da consulta e ao seu odù inverso, fazendo a invocação de todos os ires.
  • Quinto, Ọ̀wọ́nrínṣogbè, nesse verso o babalawo faz uma homenagem a exú pedindo para que ele aceite o ẹbọ.
  • Sexto, Ọ̀bàràbogbè, nesse verso o bàbáláwo pede autorização à ìyá mi para estar realizando o ẹbọ, além de exaltar as mulheres.
  • Sétimo, Ògúndábèdé, nesse verso o bàbáláwo pede autorização e saúda Egúngún para a realização do ẹbọ.
  • Oitavo, Ògúndá Màsá, nesse verso o bàbáláwo se identifica como o oficiante do ritual dizendo o seu nome e pede para que a morte e a doença sejam afastadas da vida do consulente.
  • Nono, Ìká Méjì, nesse verso o bàbáláwo faz uma referência a Ìbéjì e invoca a abundância para a vida do consulente em forma de filhos duplos, na tradicional invocação da dupla abundância.
  • Décimo, Ìrẹtẹ̀ Méjì, nesse verso o bàbáláwo pede para que nunca falte dinheiro para o consulente e exalta que aquele que é iniciado não enfrentará dificuldades com as finanças.
  • Décimo primeiro, Ọ̀ṣẹ́bile, nesse odù o bàbáláwo invoca que a alegria e todas as coisas boas venham do céu para a vida do consulente.
  • Décimo segundo, Ọ̀ṣẹ́tùrá, nesse verso o bàbáláwo pede para que a morte se afaste e que o consulente tenha uma vida longa e saudável, também roga a Ọ̀ṣun para que o ẹbọ seja aceito e que ela permita que todas as outras divindades aceitem o sacrifício.
  • E por último, o décimo terceiro odù teremos Ọ̀kànràn Sá, onde, o bàbáláwo roga pela vida do consulente, e afirma através do odù que aquele que faz ẹbọ estará salvo, pronunciando o nome da pessoa.
  • Para finalizar, o bàbáláwo pergunta a Ifá quantos búzios deverão acompanhar o ẹbọ e identifica se o sacrifício está completo, posteriormente o consulente leva o ẹbọ até o ojúbọ de Èṣù para que seja encaminhado ao Ọ̀run (mundo espiritual).

A intenção através deste capítulo é mostrar a complexidade do ẹbó rírù, para que as pessoas que desconhecem o ritual, não se tornem vítimas de sacerdotes despreparados e oportunistas. Pois, quando isso acontece os prejuízos vão muito além do dinheiro, onde, a fé é abalada gerando decepção e um progressismo afastamento da religião.

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