Aula 3 – Iniciação em Òrìṣà e Ifá

 “Infelizmente já não me surpreende mais o grande número de pessoas que se afastam do culto a Òrìṣà, a grande maioria delas tentam de toda forma encontrar uma solução para os seus problemas, porém, depois de muito tentar, terminam se afastando de seus sacerdotes e muitas vezes até mesmo da religião…”

Ifagbaiyin Agboola.

Na maioria dos casos, podemos observar dois fatores específicos que contribuem para que o fato citado anteriormente aconteça. O primeiro é a carência de conhecimento da verdadeira proposta religiosa do culto a Òrìṣà e o segundo é o despreparo e a falta de critério de muitos sacerdotes.

Conforme estudado em aulas anteriores na tentativa de explicar muitas das falhas ocorridas ao longo do tempo em nossa religião, ficou claro para nós que existem regras dentro do culto de Òrìṣà.

Nessa aula iremos seguir um raciocínio paralelo na tentativa de evidenciar as falhas que constatamos no dia a dia, e considerando as experiências adquiridas no atendimento de ex-praticantes da religião em diversos estados do nosso país.

A grande maioria das pessoas entram para a religião buscando solução para problemas que muitas vezes estão incluídos em uma demanda ansiosa por respostas que jamais serão encontradas. O sagrado pode ser acessado, porém, jamais vai ser desmistificado sem estudo e dedicação. A falta de conhecimento implica diretamente na exacerbação do inimaginável como solução. 

A máxima de que, se não há uma resposta, se inventa uma, contribui para o descrédito de muitos sacerdotes, ocasionando diretamente o afastamento de milhares de adeptos.

Com relação aos dois elementos citados como desencadeadores dos fatos em andamento abordaremos a partir de agora os fatos que comprometem o desenvolvimento da relação iniciado e iniciador e pelo iniciado ou adepto.

Embora não tenhamos a intenção de nos intitular como donos da verdade. A nossa opinião é fundamentada naquilo que acreditamos, sempre dispostos a ouvir outras opiniões.

Iniciado ou adepto: A expectativa criada em nossa religião para as soluções divinas não é sentida no catolicismo, nem no judaísmo e nas demais religiões, seria por que o nosso Deus é mais poderoso? Ou por que se criou uma ilusão sobre a temática da influência divina em nosso dia a dia na mente de nossos adeptos?

Compreende-se que Deus é único e devido à escassez de informação gera a incapacidade de raciocínio de nossos adeptos, resultando diretamente na decepção e no afastamento da religião. Se Olódùmarè e os Òrìṣàs estivessem à nossa disposição para solucionar todas as nossas dificuldades, sejam elas na área sentimental, financeira, profissional, enfim, a pergunta que faço a você é a seguinte: qual seria o motivo para estarmos vivos?

Quando você sabe o que esperar da sua fé a decepção com o divino não existe, a felicidade se acentua e o destino é visto com a certeza de que, a maioria dos acontecimentos em nossas vidas foram resultados das nossas próprias escolhas.

A força superior existe e pode ser invocada por nós, ela nos ouve e nos responde, mas, infelizmente na maioria das vezes não escutamos a sua voz devido as nossas imperfeições.

O iniciador, ou seja, o sacerdote: Abordaremos a questão do sacerdócio nessa aula exclusivamente ao que se diz respeito ao conhecimento, e do preparo do oficiante dos rituais, considerando que a ética já foi abordada por nós em outras aulas. Vamos analisar a iniciação como fato isolado do elemento gerador do afastamento dos adeptos de nossa religião considerando o relato dos mesmos, embora em nossa opinião, tais fatos se originem em uma gama bastante variada de implicações.

Tomaremos como exemplo uma iniciação no Òrìṣà Ògún. Partindo do princípio que a teologia Yorùbá explica que os Òrìṣàs se originam através dos odùs. Suponhamos que o iniciador esteja se orientando pelos versos sagrados de Ifá, sendo assim, haveria inúmeras formas de acesso ao mesmo Òrìṣà, devido à variedade de odus com conteúdo diferenciados.

Assim sendo, se o iniciador acessar o Òrìṣà Ògún no odù Ìwòrì Méjì, o conflito armado envolvendo a vida do iniciado poderá se tornar uma constante em seu dia a dia. Bem como, se acessado pelo odù Ògúndá Òfún, implicará em situações que poderão atrair o ilícito para o caminho do iniciado. Por outro lado, uma iniciação do Òrìṣà Ògún, realizada através do odù Ògúndá Ìròsùn, se bem aplicada, deverá resultar diretamente em prosperidade e ascensão do adepto.

A variedade de odùs que poderão ser aplicados para o culto do mesmo Òrìṣà é muito ampla, o que irá determinar qual o odù que será utilizado na iniciação será através de consultas prévias e as circunstâncias recorrentes na vida do iniciado, sejam elas positivas ou até mesmo negativas.

Imaginem que se em uma consulta o odù é fator determinante, o que dizer então de uma iniciação. Somente, com uma profunda qualificação e conhecimento sobre Ifá, é que o sacerdote poderá conduzir os rituais pelos melhores caminhos a serem seguidos.

Podemos afirmar que um dos fatores determinantes para o grande número de pessoas que se decepcionam e que até mesmo se afastam da religião seria a escassez de conhecimento sobre odù em nosso país por parte dos sacerdotes.

Tomamos como exemplo uma mesma iniciação aplicada em duas pessoas com diferentes resultados sem que tenhamos uma explicação lógica, onde, o que foi positivo para o Pedro, pode não ser para o João, as mesmas cerimônias que foram realizadas para o João, poderão ser insuficientes para o Pedro.

Imaginemos agora a mesma iniciação no Òrìṣà Ògún, que por despreparo do sacerdote se baseou no odù Ògúndá Ìwòrì, odù esse que fala da fúria desse Òrìṣà, por falta de conhecimento e despreparo do iniciador poderá levar à ruína a vida dos iniciados.

Na verdade, se diminuirmos os anseios dos iniciados oferecendo mais informações e capacitarmos mais os iniciadores, o fluxo de abandono da nossa religião será bastante reduzida. Através da divulgação da palavra de Ọ̀rúnmìlà por bons sacerdotes. Bàbáláwos bem-preparados poderão reverter o processo de evasão das casas de Òrìṣà.

Para isso, é necessário o entrosamento entre os adeptos e os sacerdotes de Ifá e Òrìṣàs, caso contrário, jamais poderemos explicar para a população aquilo que elas anseiam dos Òrìṣàs, sem um estudo profundo dos versos de Ifá. Tentar justificar o que se desconhece, é menosprezar os anseios daqueles que tem fé.

error: O conteúdo é protegido!!