Quando se ouve falar de um Ìtẹ̀fá, algumas pessoas acreditam ser algo impossível de ser realizado no Brasil.”
Agboola, Ifagbaiyin.
Para que o rito de Ìtẹ̀fá, seja realizado, é necessário mais de um Bàbáláwo, na Nigéria, é comum nós vermos vários Bàbáláwos, participando de um Ìtẹ̀fá, respeitando as diferenças familiares, ritualísticas e convivendo em harmonia. Conforme segue a orientação de Ọ̀rúnmìlà Ifá. Poderemos perceber o porquê, da necessidade da participação de várias pessoas para a realização de um Ìtẹ̀fá.
No Brasil, uma tradução do ponto de vista dos leigos e mal interpretada a referência ao Igbódù (floresta sagrada), fez muitos indivíduos acreditarem na necessidade de iniciar a pessoa em Ifá no meio das matas, porém, ninguém fica no meio do mato abandonado por três dias e três noites e muito menos em um local que não foi devidamente preparado para aquela finalidade.
O Ìtẹ̀fá poderá ser realizado de duas maneiras, a primeira é onde o Igbódù é construído somente com folhas e a segunda é um cômodo separado exclusivamente para essa finalidade, onde, ambas abrigam o Òrìṣà Ìyá Òdù. O fato de que as mulheres não podem ter acesso a esse assentamento, na Nigéria, é comum que Ìyá Òdù, seja mantida em uma pequena construção de alvenaria ou de madeira.
Após a autorização através da consulta a Ifá, o sacerdote identifica o início da cerimônia após a chegada da pessoa que será iniciada, com todos os materiais que foram previamente comprados de acordo com a orientação do Bàbáláwo, dá-se então início a cerimônia, que dependendo da família gira em torno de 50 rituais diferentes.
Um ou dois Bàbáláwos, são encarregados de preparar o Igbódù, onde, um deles após a preparação do local, alimenta a terra e pede permissão para construir o caminho que conduzirá até o ambiente sagrado, onde, será depositado na terra búzios juntamente com mais dois ou três elementos, em número par de um lado e ímpar do outro, do caminho que acabara de ser construído que dará acesso ao local previamente preparado.
O grupo que irá participar da iniciação se divide em tarefas, enquanto a Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí cuida dos pertences do iniciado, a Ìyánífá, prepara o carrego para a entrada no Igbódù, paralelamente, o Olúwo e o Bàbáláwo, amarram simultaneamente em um dos braços e uma das pernas um pedaço de tecido virgem branco que contém uma parte do dinheiro que representa o pagamento para o início dos rituais.
Começa então um cortejo que se desenvolve em direção ao Igbódù, com o Olúwo, na frente conduzindo o Ọ̀pá Osú (antepassado), que representa o reconhecimento dos antepassados para o ritual que se inicia, seguido pelo Bàbáláwo e a Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí, com o yangí de Èṣù, sobre a cabeça, esse ritual que apresenta o iniciado aos antepassados dos familiares retrata o esforço que ele faz para agradar as divindades, em um carrego bastante amplo, amostras de cada um dos elementos a serem usados na iniciação, são conduzidas sobre a cabeça do iniciado, acompanhados dos membros da Ẹgbẹ́ Ifá, amparado pela Ìyánífá, que agrada com dendê e gim, algumas divindades durante o cortejo.
Na entrada do Igbódù, o iniciado vai estar vendado, pois, até que sejam formalizados os rituais para que ele entre na parte que antecede o Igbódù, muitas coisas acontecem, ele é envolvido em um clima de expectativa, sentado segurando os animais e o material, enquanto o Olúwo e o Bàbáláwo, oferecem obì e orógbó para Èṣù Ọ̀dàrà e Ọ̀rúnmìlà. Após a autorização a venda é retirada, todo o material é colocado dentro do Igbódù, e se inicia a raspagem do iniciado.
Os rituais prosseguem simultaneamente, os mesmos Bàbáláwos, que prepararam Ọ̀pá Osú (antepassados), previamente para a cerimônia, reservam uma parte das folhas que será utilizada junto com outros elementos específicos para lavar os olhos das pessoas que irão começar os rituais dentro do Igbódù.
O primeiro grupo trabalha na preparação da parte interna do Igbódù, e o segundo grupo prepara o iniciado, um terceiro grupo auxiliam no serviço externo, ou seja, fora do Igbódù, pois, existem rituais que jamais podem ser mencionados ou até mesmo vistos por quem não possui certas autorizações.
Podemos observar através do número de cerimônias a quantidade de trabalho, tanto o trabalho da parte religiosa quanto da parte de hospedagem da pessoa que está sendo iniciada e do grupo que compõe a Ẹgbẹ́ Ifá. O que implica muito serviço nos bastidores e gastos financeiros.
Já com alguns ìmulẹ̀s feitos, após a entrada no Igbódù, o Olúwo e o Bàbáláwo, agradam Ifá, Ìyá Òdù, Ọ̀pá Osú (antepassados) e Èṣù, não necessariamente nessa ordem. O iniciado que antes da entrada passou por uma consulta a Ifá, e por um ẹbọ rírù, agora com a cabeça raspada, vai conhecer o seu odù, que logo em seguida será alimentado e antes que o iniciado veja seu Ifá, da terra brotará o segredo.
Depois disso alguns rituais envolvendo banhos, pinturas e a preparação da nova roupa do awo, devem ser feitos de forma reservada, por pessoas do mesmo sexo, considerando o fato de que para colocar uma roupa é necessário tirar outra que vai ser despachada junto com o cabelo em um local que não vamos definir aqui, posteriormente, o Èṣù do iniciado será alimentado, em alinhamento com o odù Ifá, do awo.
Após essa parte, todos os participantes fazem um intervalo onde se alimentam e planejam a segunda etapa, onde, o Èṣù, da casa é alimentado e abençoa o caminho do novo iniciado como membro da Ẹgbẹ́.
A ordem exposta aqui não deixa nítido o teor e a sequência dos rituais, o grupo desenvolve várias atribuições ao mesmo tempo. Em um dado momento o Ifá, do iniciado sai do Igbódù, para ser alimentado do lado de fora, pois, o awo deverá presenciar esses rituais e nem sempre quem participa de um Ìtẹ̀fá, poderá em um futuro ter acesso a um Igbódù.
Após esses pequenos rituais, porém, de grande importância, confirmam o awo, como membro da Ẹgbẹ́, ele que fez vários ìmulẹ̀s e compactuou com o segredo e assumiu a responsabilidade com a verdade é parabenizado por todos, agora regido por Ọ̀rúnmìlà, em um momento único, abençoa todos os membros que participaram do seu Ìtẹ̀fá.
Em algumas famílias esses rituais são divididos em três partes, que podem ser feitas em três ou sete dias, a maioria faz em três dias, quando o awo vai ao rio em outros rituais que não podemos relatar aqui, onde, ele se desfaz de sua vida passada, passando a ser portador de um novo nome, no qual o identificará com uma nova vida.
Essa aula visa contribuir para o esclarecimento visando afastar definitivamente as histórias mirabolantes do que é ser iniciado em Ifá. Sendo assim que fique claro:
A designação de Igbódù, é muito diferente da descrita em literaturas criadas por pessoas que não foram submetidas ao Ìtẹ̀lodù.