Abordaremos através dessa aula certos esclarecimentos sobre Iṣẹ́fá e Ìtẹ̀fá, ritos esses que estão se tornando cada vez mais populares no Brasil e consequentemente gerando bastante dúvidas para o nosso povo. Obviamente, respeitando as diferenças de cultos de cada família e região, porém, difundindo os procedimentos dentro do seguimento que professamos.
Em nossa família consideramos o Iṣẹ́fá uma pré-iniciação, onde, toda pessoa que é submetida a um Iṣẹ́fá, receberá um nome, além das orientações do Odù revelado. Se dentro dessas orientações ocorrer a indicação que a pessoa deverá se tornar um bàbáláwo ou uma ìyánífá, o Ifá será alimentado novamente em um novo ritual e um ọ̀pẹ̀lẹ̀ de cabaça será consagrado para o início de seus estudos, sendo assim, o pré-iniciado poderá ser reconhecido também como Awo Kékeré, esse tipo de situação poderá ocorrer quando o pré-iniciado recebe como orientação em seu Iṣẹ́fá, um odù méjì, assim como, diversos outros odus que indicam essa necessidade.
Para mais fácil compreensão das categorias dos devotos de Ifá, teremos os pré-iniciados, ou seja, aqueles que possuem Iṣẹ́fá, que são categorizados como Ọmọ Ifá, diferente daqueles que se submeteram ao Ìtẹ̀fá, que são categorizados como Awo Ifá, em nossa família utilizamos essas duas categorias e ainda Awo Kékeré, que literalmente significa pequeno segredo, que faz referência ao sacerdote em desenvolvimento, Awo Kékeré é uma categoria utlizada para aquelas pessoas que foram indicadas por Ọ̀rúnmìlà, ao Ìtẹ̀fá e Ìtẹ̀lodù e que venham a ser futuros sacerdotes, onde, deram início aos estudos na pré-iniciação, ou seja, no Iṣẹ́fá, quando Ọ̀rúnmìlà orientou através do odù que aquela pessoa possuia caminho sacerdotal.
É importante esclarecermos que o Iṣẹ́fá, não é uma cerimônia obrigatória para realizar um Ìtẹ̀lodù, porém, não se realiza um Ìtẹ̀lodù, sem que tenha cumprido um Ìtẹ̀fá. Também vale ressaltar que Awo Ẹlẹ́gan é a categoria dos devotos de Ifá, onde a recomendação de Ọ̀rúnmìlà é apenas o Ìtẹ̀fá, e que os iniciados dessa categoria nunca poderão ver Ìyá Òdù, que automaticamente entende-se que são pessoas que não possuem caminho para o sacerdócio. O Ìtẹ̀fá é o momento mais importante na vida da pessoa que escolhe a religião tradicional yorùbá, onde, esse conjunto de cerimônias mudam ou redefinem o caminho a ser percorrido pelo iniciado. Uma pessoa iniciada em Ifá, tem acesso a informações confiáveis que orientam e norteiam que direção devemos seguir. Podemos dizer que é quase como um renascimento, a partir da iniciação seguimos as orientações de Ọ̀rúnmìlà Ifá, tornando assim, a nossa caminhada na Terra em busca da realização do nosso destino mais descomplicado, pois, muitas vezes estamos caminhando no sentindo oposto àquele escolhido por nós, antes do nascimento.
O ritual do Ìtẹ̀fá é facilmente identificado logo de início, pois, com a figura do Olúwo à frente, a Ìyá Apẹ̀tẹ̀bí com o yangí de Èṣù sobre a cabeça, o bàbáláwo à direita e uma ìyánífá à esquerda com um recipiente na mão, seguidos pelo iniciado com o carrego e o seu Ojúgbọ̀nà que muitas vezes pode ser o seu próprio bàbáláwo. Em um segundo momento vários rituais são processados desde a retirada do cabelo, banho com folhas, pinturas, dentre outros. Tais rituais tem como finalidade chegar ao momento mais importante do Ritual de Ìtẹ̀fá, quando o iniciado sentado atrás do seu Olúwo, coloca suas mãos sobre os ombros dele, para a obtenção do odù de nascimento do iniciado, que fique claro que somente no Ìtẹ̀fá isso é possível, esse odù servirá como referência e orientação, devendo ser estudado exaustivamente, pois dentro dele em suas histórias sagradas poderão ser encontradas as respostas para todas as dúvidas do iniciado.
Somente aquele que foi submetido a um Ìtẹ̀fá tem a informação definitiva sobre o seu odù, somente aquele que foi submetido a um Ìtẹ̀fá é conhecedor do seu destino. A iniciação em Ifá, pode ser comparada ao mapa que irá guiar o iniciado na viagem da vida, aquele que não possui o mapa, perde tempo e muitas vezes andam em círculos enfrentando inúmeras dificuldades, mas, a pior delas é a insegurança do caminho a ser seguido. O culto a Ọ̀rúnmìlà está descrito nos versos de Ifá, não existe improvisação ou criatividade, as cerimônias deverão ser realizadas fidedignamente pautadas na teologia yorùbá, o não alinhamento com a origem poderá comprometer a legitimidade dos atos.